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O Boto

Mito Amazônico do delfim maior do rio, que seduz as moças ribeirinhas. É encantado e nas primeiras horas da noite (há quem diga à meia-noite) se transforma em gente. Anda em cima dos paus das beiradas, de preferência sobre os buritizeiros tombados nas margens. Veste sempre roupa branca e aparece nas festas onde procura dançar com as moças mais jovens e mais bonitas. Sai com as mesmas para passear e estas ficam sempre grávidas, razão porque é tido por pai das crianças de paternidade desconhecida, havendo mesmo o depoimento sincero das mães que o apontam como responsável. Antes da madrugada pula na água e volta à forma primitiva.

O boto-homem tem um orifício no alto da cabeça, razão porque aparece de chapéu, ocultando, além de um forte cheiro de peixe, hálito de maresia. Sedutor e fecundador obcecado, o boto sente o odor feminino a grandes distâncias, virando as canoas em que viajam mulheres que "não estejam conformes" (menstruadas), pois o boto não gosta. Isto ocorre sempre à noite, e para evitar o boto, esfrega-se alho na canoa, nas portas e nos lugares que ele gosta de parar.

As primeiras alusões à lenda aparecem em meados do século XIX, inicialmente referentes a sua transformação numa formosa mulher que atrai moços para o rio, afogando-os, e pouco depois as suas aventuras com as cunhãs das cercanias do rio.

Sobrexistindo hermafrodita, o mito termina pela fixação morfológica dicotômica em Boto e Mãe-d'Água, o cetáceo, restringindo-se às mulheres e a Iara, aos homens.

A inexistência, no Brasil, nos séculos XVI, XVII e XVIII, de entidades com os atributos do boto, faz supor que a lenda seja de origem branca e mestiça, com projeção nas malocas indígenas e ribeirinhas.